Som e Silêncio - 1 (HENRIQUE, 2003, p. 5)
O conceito de música tem vindo a ser alargado à medida que se alargam também os horizontes da composição musical, sobretudo no século XX, com o aparecimento da música concreta, da música eletroacústica, da música serial. Mesmo considerando esse alargamento, o som continua a ser a matéria-prima da música e simultaneamente o fundamento de toda a sua estrutura. Mas a música faz-se de sons e de silêncio, logo podemos considerar que existem duas matérias-primas: som e silêncio.

A propósito do Adagio do Concerto em ré menor BWV 1052 de Bach para piano e orquestra, Émery (1997: p. 93) questiona relativamente às pausas (vazios) existentes na parte introdutória da orquestra: "Sentem estes vazios como frações de segundo inabitadas, ou como elementos expressivos carregados de densidade no seio da forma musical?" Émery reconhece que pôr a questão desta maneira, é simultaneamente dar-lhe a resposta.

Naturalmente que o termo vazio é usado aqui no seu sentido físico: ausência de som, e não como sinônimo do "nada". Se esses vazios têm tanto significado, como poderiam ser conotados como nada?

O exemplo apresentado é um entre outros possíveis, que mostram a importância dos silêncios na música como elemento expressivo fundamental. Mas Émery (1997) considera que a importância dos silêncios na execução musical ultrapassa largamente a alternância de sons e vazios. Assim, os vazios assumem (ou deveriam assumir) uma importância fundamental em quatro ocasiões: o momento que antecede o início de uma execução musical; os espaços de tempo entre os andamentos de uma obra; os silêncios no seio de uma peça musical; o momento imediatamente a seguir ao fim da execução.

Na realidade, o impacto de uma execução e a existência ou não de uma verdadeira mensagem musical, dependem muito da maneira como os músicos e o público sentem as pausas no seio da música e nos momentos que antecedem e seguem a execução. Por exemplo, numa peça musical que tenha um final em pianíssimo, o silêncio após a última nota é imprescindível. Mas muitas vezes o corte desse silêncio provocado precipitação dos aplausos destrói completamente a sensação.

Em música os silêncios são representados por pausas, cujas durações são equivalentes às das figuras respectivas. Para além das pausas escritas na partitura, o intérprete deverá saber encontrar os momentos certos para "respirar", isto é, para executar como se cantasse. São as respirações que dão naturalidade e sentido ao discurso musical. Quando não existem é como se alguém falasse continuamente, mudando de assunto, sem parar e sem fazer pontuação.

A palavra SOM tem dois significados consoante se considera como fenômeno físico ou como fenômeno psicofísico. Para haver som tem que existir uma fonte sonora. O significado físico diz respeito à fonte sonora e à propagação do som através do meio. O significado psicofísico refere-se à audição desse fenômeno, ou seja, à sensação que provoca em nós. Considerar o som como um fenômeno físico ou como uma sensação, depende do tipo de abordagem. Se estudamos a produção do som num violino, por exemplo, pensamos no som como fenômeno físico; se estudamos a percepção auditiva do som do violino, pensamos no fenômeno psicofísico.

REFERÊNCIA
HENRIQUE, Luis L. Acústica musical. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. 1130 p.
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