Contraponto: Introdução (TRAGTENBERG, 2002)
"... O estudo de contraponto é essencial na formação do músico. (...) O contraponto desenvolve o ouvido interno, a capacidade de identificar vozes e a percepção musical, auxiliando na compreensão do discurso musical, sendo ainda indispensável à composição e análise musical." (CARVALHO, 2006, p. 9)

O termo contraponto deriva do latim punctus contra punctum, nota contra nota, ou ainda melodia contra melodia. Estes "pontos" referem-se à notação antiga. Trata, portanto, de sons que se contrapõem simultaneamente. Basicamente, contraponto é "sentido" melódico; é a arte de combinar duas ou mais linhas melódicas independentes e simultâneas. A chave para um bom contraponto entre as vozes é o tipo de direcionamento que se estabelece no desenvolvimento das diferentes melodias.



A composição contrapontística tem sua origem no órganum, principalmente no melismático e o termo foi usado pela primeira vez no século XIV. Quando se acrescenta uma parte a uma outra já existente, diz-se que a nova parte faz contraponto com a anterior. O termo às vezes é reservado para a teoria ou o estudo de como uma parte deveria ser acrescentada a outra, mas na maioria das utilizações modernas não se distingue de "polifonia", significando literalmente "sons múltiplos"; existe, no entanto uma tendência a aplicar "polifonia" à prática do século XVI (o período de Palestrina) e "contraponto" à do início do século XVIII (a época de Bach). (SADIE, 1994, Contraponto)

Arnold Schoenberg, o compositor moderno que mais recuperou procedimentos contrapontísticos para sua revolução na linguagem musical, acredita que o estudo do contraponto clássico, mais que uma espécie de ciência, teoria ou estética, é "um método de treinamento, e o principal propósito deste método é ensinar ao estudante como usar os seus conhecimentos em sua prática composicional". (p. 17)

É possível observar duas formas básicas de apresentação da técnica do contraponto ao longo do tempo: a vocal e a instrumental. Na realidade, a segunda desenvolve os conceitos básicos da primeira; mas, a partir de sua prática, conduz a caminhos diversos que reclamam soluções específicas. (p. 19)

Os procedimentos polifônicos utilizados em motetos e missas dos séculos XVII e XVIII foram, ao mesmo tempo, os herdeiros e o ápice de um patrimônio técnico desenvolvido desde a música monódica (baseada em uma linha melódica apenas). Esses procedimentos polifônicos se encontram sintetizados na obra de J. S. Bach. Nela, ao mesmo tempo em que se apresentam de forma clara as relações e regras da polifonia tonal – depurada dos excessos polifônicos da escola flamenga, que construía tramas polifônicas com até 32 vozes, por exemplo –, são comuns as transgressões dessas mesmas regras. (p. 19)

A obra de Bach representa a consolidação de uma etapa da linguagem musical que marca a passagem definitiva do modalismo e pré-tonalismo à tonalidade de modo maior e menor com seu conjunto de relações, bem como a aquisição definitiva para essa linguagem de cromatismos, cadências e acordes com novas formações. (p. 19)

O próprio aperfeiçoamento dos instrumentos musicais contribuiu para que novas possibilidades de construção das linhas melódicas – e consequentemente da polifonia – fossem desenvolvidas e concretizadas. (p. 19)

Assim, ao longo do tempo, a prática musical foi ganhando importância e reclamando nossas formulações polifônicas, as quais já não eram mais atendidas pelos procedimentos baseados na prática vocal. (p. 19)

Para uma compreensão global dos procedimentos técnicos do contraponto é necessário uma abordagem que inclua tanto a "exposição vocal" como a "exposição instrumental" (em que contribuem fatores já ligados à composição) com suas práticas respectivas. (p. 19)

A "exposição vocal" baseada no contraponto vocal clássico facilita o primeiro contato com as regras, normas e situações do contraponto tonal. Já a "exposição instrumental" estabelece pontes e conexões com a prática da composição propriamente dita (p. 19) e, possibilita a utilização de exemplos musicais de diferentes períodos (p. 20).

Esse duplo enfoque não significa antagonismo ou ruptura. Mas serve para demonstrar de que forma os compositores utilizam e recriam as regras e normas, e como se justificam na pratica algumas proibições e restrições técnicas. (p. 19)

O contraponto procura sistematizar a combinação dos diversos elementos da ideia musical. A partir dele, a harmonia ganha temporalidade e ritmo. A música se constrói, se levanta. É através da condução das linhas melódicas que ritmo, harmonia e forma se tornam realidade. (p. 20)

REFERÊNCIAS
CARVALHO, Any Raquel. A Evolução do Contraponto. In: ______.Contraponto Modal: manual prático. 2ª ed. Porto Alegre : Evangraf, 2006. 133 p.

SADIE, S. Dicionário Grove de Música. Tradução de Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro : Zahar, 1994. 1060 p.

TRAGTENBERG, Livio. Contraponto: Uma Arte de Compor. 2ª ed. São Paulo : Editora da Universidade de São Paulo, 2002. 266 p.

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