Breve História da Acústica Musical : Antiguidade (HENRIQUE, 2003, p. 14)
Para os filósofos gregos a origem do som estava no movimento de partes do corpo. Esse movimento era transmitido através do ar, devido a movimentos indefinidos deste, provocando na vizinhança do ouvido a sensação auditiva (Lindsay, 1966). A questão do movimento originou algumas polêmicas entre os gregos. Alguns filósofos pré-socráticos especulavam sobre os fenômenos naturais e a origem do Universo e, nesse contexto, Heráclito (c.540-c.480 a.C.), mostrando a percepção de que todas as coisas se movem, afirma que "tudo flui, e nada permanece"... "não se poderia entrar duas vezes no mesmo rio" (Santos, 1992, p.144). Numa visão antagônica do cosmos, Parménides defendia que nada muda.

Pitágoras (c.570-497 a.C)

Pitágoras e seu mestre Tales de Mileto (c.640-546 a.C.) introduziram a matemática na cultura grega. Filósofo e matemático grego, Pitágoras é considerado a primeira pessoa a ter um papel relevante na investigação dos sons musicais. No século VI a.C. realizou uma série de experiências em cordas vibrantes utilizando um aparelho muito simples, o monocórdio, cuja versão moderna corresponde ao sonômetro (Existe um outro aparelho também designado sonômetro que serve para medir o nível de pressão sonora.). O monocórdio é constituído por uma corda tensa sobre uma caixa alongada, a qual tem marcada uma escala numérica. Existem dois cavaletes de madeira fixos e um móvel. Deslocando-se este cavalete divide-se a corda em frações do seu comprimento, comparando um som produzido pela totalidade da corda com o som dessas frações. Assim, Pitágoras constatou que, quanto menor fosse o comprimento de uma corda, mais agudo era o som produzido. Em particular, comparando o som de uma corda com outra de metade do comprimento, concluiu que os sons produzidos estavam a intervalo de 8ª. Do mesmo modo, os intervalos de 5ª e 4ª, resultavam de frações dessa corda, respectivamente, 2/3 e 3/4. Pitágoras estabeleceu portanto a relação entre os comprimentos de uma corda e os intervalos daí resultantes. Por esse processo ele definiu as principais consonâncias: 8ª, 5ª e 4ª.

Pitágoras não deixou nenhum registro escrito do seu trabalho, e o que dele se sabe é através da obras de Aristóteles (384-322 a.C.) e Platão (c.429-347 a.C.). Talvez por isso, exista uma série de lendas a seu respeito, sendo uma das mais conhecidas, a dos martelos. Uma descrição desta lenda, e da invenção do monocórdio é dada pelo filósofo romano Boécio (480-524) em De Institutione Musica.

Para Pitágoras o número é a essência do universo e como tal, há uma certa dose de misticismo nas suas conclusões sobre as relações numéricas dos intervalos. A partir dos estudos efetuados no monocórdio, idealizou um núcleo constituído pelos quatro primeiros números inteiros, denominado Tetractys, que simboliza o princípio gerador de tudo. Os números inteiros sempre tiveram uma carga mística que Kronecker (1823-1891) bem sintetizou: "Deus criou os números inteiros, e tudo o resto é obra do Homem" (Boyer, 1991, p. 570). Apesar de haver conotação de Pitágoras a certas lendas, surge com ele uma atitude científica em relação à música.

Segundo Helmholtz (1885/1954: p. 1), é provável que a observação de Pitágoras das consonâncias perfeitas a partir do som das cordas fosse parcialmente conhecida de sacerdotes egípcios, sendo impossível conjecturar sobre a antiguidade destes conhecimentos.

Pitágoras considera a música uma representação da harmonia do universo, resultando daqui a harmonia das esferas, isto é, a música produzida pelos corpos celestes. Pitágoras acreditava que a distância entre a terra e os corpos celestes visíveis a olho nu, assim como as velocidades com que esses corpos giravam à volta da Terra, estavam relacionadas entre si com as mesmas relações que caracterizavam as notas da escala diatônica. Pensava também que a distância entre os planetas bem como o seu movimento estavam relacionados com intervalos musicais, e que cada planeta emitia um som proporcional ao seu peso. Estes sons eram completamente concordantes, podendo produzir uma bela melodia.

A música tinha uma grande importância no ensino, como o prova o clássico quadrivium, que englobava quatro ramos da matemática: Aritmética, Geometria, Astronomia e Música. Ao quadrivium juntava-se o trivium (Gramática, Retórica e Dialética), designando-se o conjunto global por Sete Artes Liberais, por serem consideradas próprias para a educação de um homem livre. O quadrivium e o trivium correspondem grosso modo àquilo que nos nossos dias designamos por Ciências e Letras, e constituíram durante a Idade Média e a Renascença a base propedêutica do ensino nas Universidades (Carvalho, 1986).

Aristoxeno (360-280 a.C.), aluno de Aristóteles, era músico e escreveu numerosas obras sobre filosofia, ética e música. Na obra Elementos de Harmonia refere-se a conceitos como intervalos, melodia, consonâncias, tetracordes. Aristoxeno recusa aplicar à música de modo dogmático e racionalista princípios abstratos retirados da matemática. Advoga, como complemento, que a componente sensorial deve intervir na apreciação dos fenômenos musicais, colocando-se assim numa atitude próxima de Aristóteles, e de certo modo oposta à de Pitágoras e Platão (Palisca, 1980).

REFERÊNCIA
HENRIQUE, Luis L. Acústica musical. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. 1130 p.
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