Breve História da Acústica Musical : Século Vinte (HENRIQUE, 2003, p. 32)
Na fase de transição para o século XX destaca-se o nome de Wallace Sabine, que iniciou os conhecimentos sobre acústica de salas.

Sabine (1868-1919)

O físico americano Wallace Clement Sabine nasceu em 1868 em Ohio e fez sua carreira acadêmica na Universidade de Harvard, onde foi membro do Departamento de física desde 1889 até morrer. De 1895 a 1915 Sabine publicou importantes conclusões no domínio da acústica arquitetural que se tornaram a base dos conhecimentos nesta área.

Em 1895 a Universidade de Harvard abriu um auditório novo, expansível (Fogg Lecture Hall), considerado uma obra-prima de arquitetura, mas que apresentava um problema: acusticamente era tão mau que os alunos dificilmente percebiam o que os professores diziam. Sabine procurou compreender o que se passava, e após ter reconhecido a importância fundamental do tempo de reverberação ensaiou meios para o alterar. Uma das técnicas que usou foi a colocação nos assentos de almofadas de diversos materiais para testar o tempo de reverberação. Como o auditório era constantemente usado, Sabine realizou as experiências durante dois anos entre a meia-noite e às cinco horas da manhã, colocando 400 almofadas com o auxílio de dois assistentes, e retirando-as todos os dias antes das aulas começarem. Embora não tenha conseguido melhorar substancialmente a acústica do auditório, desenvolveu um corpo de conhecimentos científicos fundamental sobre acústica de salas numa série de artigos escritos entre 1900 e 1915 (Johnston, 1989).

Os seus conhecimentos só foram postos verdadeiramente à prova como consultor acústico de uma nova sala: Boston Symphony Hall. Foi na realização deste projeto que Sabine desenvolveu a célebre formula fórmula conhecida pelo seu nome para calcular o tempo de reverberação. Refira-se que, apesar de não ter tido boa aceitação na altura, a Boston Symphony Hall viria a ser considerada uma das melhores salas de música de todos os tempos.

Sabine ajudou a criar o Riverbank Acoustical Laboratories em Geneva (Illinois), provavelmente o primeiro laboratório para estudo e pesquisa em acústica (Richel, 2000). À unidade de absorção sonora foi dado o seu nome: Sabine (embora praticamente não se use).

Harvey Fletcher (1884-1990), hoje considerado o "pai da psicoacústica" (Raichel, 2000), realizou uma série de importantes trabalhos (1920-40) na definição e quantificação de conceitos como o efeito de máscara, a sensação de intensidade (loudness) e outros fundamentais para a comunicação da palavra. Além de Fletcher refiram-se os nomes de S. S. Stevens (1906-1973), H. Davis (1896-1992 e C. Seashore (1866-1949) que desenvolveram nos Estados Unidos importantes pesquisas na área da psicofisiologia da audição e escreveram alguns textos hoje considerados clássicos.

No início do século XX, Dayton Miller (1866-1941), professor de física em Cleveland contribuiu para o estudo das propriedades acústicas dos instrumentos musicais. Dayton Miller escreveu um livro muito interessante sobre acústica musical (1916) e uma história da acústica referente ao início do séc.XX (1935). Harry F. Olson (1902-1982) dirigiu o Acoustical Laboratory da RAC, desenvolveu importantes estudos na área da reprodução sonora e concebeu modelos modernos de altifalantes. Vern O. Knudsen (1893-1974), Cyril M. Harris e Michael Barron desenvolveram conhecimentos sobre acústica de salas. O indiano Sir Chandrasekhara Raman (1888-1970) realizou um trabalho notável sobre a corda vibrante e sobre tambores indianos.

Philip M. Morse (1903-1985), Karl Uno Ingard, Allan D. Pierce e Leo L. Beranek escreveram importantes textos sobre acústica teórica. Beranek escreveu também dois livros fundamentais sobre acústica de salas de concerto.

Békésy (1899-1972)

Georg von Békésy nasceu em Budapeste, na Hungria e foi engenheiro de telecomunicações. Békésy começou a estudar o ouvido humano em 1928, altura em que trabalhava na adaptação do telefone ao nosso ouvido. Para isso construiu modelos mecânicos que simulavam o caracol do ouvido interno. Utilizando microinstrumentos que construiu para o efeito, confirmou os resultados observando ouvidos de animais e mais tarde de cadáveres humanos. Békésy observou que quando a onda se propaga ao longo da membrana basilar, atinge um máximo de amplitude num ponto, decaindo depois rapidamente, e que esse ponto corresponde à frequência do som em causa. Além disso confirmou também a suposição de Helmholtz de que a ressonância a sons agudos estava localizada na base da membrana basilar e a sons graves na extremidade solta. É o criador da teoria hoje aceite de ressonância da membrana basilar que ficaria conhecida pela Teoria do Lugar. As suas observações foram de uma importância crucial para o conhecimento do sistema auditivo. Os artigos científicos que publicou foram reunidos no livro Experiments in Hearing. Pelos trabalhos realizados neste domínio, Békésy recebeu em 1961 o prêmio Nobel da Medicina.

Não é possível enumerar todas as realizações no domínio da acústica musical no século XX, atendendo à vastidão do trabalho realizado e às ligações da acústica a muitas outras áreas do conhecimento. Para uma panorâmica geral do desenvolvimento da acústica nos séculos XIX e XX, aconselho o recente livro de Beyer (1999). Beyer começa o seu trabalho do ponto de vista cronológico onde Frederick Hunt (1905-1972) termina a sua obra (1978). Ainda sobre a história da acústica veja o artigo de Robert Bruce Lindsay (1900-1973) escrito em 1966 assim como a coletânea de textos por ele editada (1972).

A acústica musical tem tido um grande desenvolvimento nas duas últimas décadas. A existência de equipamentos adequados à realização de trabalho experimental, assim como o grande desenvolvimento dos meios informáticos, têm permitido um avanço significativo no estudo da acústica dos instrumentos, psicoacústica, acústica de salas e outras áreas. Algumas técnicas fundamentais que são atualmente utilizadas em acústica musical: modelação de sistema, processamento digital de sinal, análise e identificação modal, interferometria holográfica. Este último processo permite obter figuras que representam os modos vibratórios, a partir de luz laser.

REFERÊNCIA
HENRIQUE, Luis L. Acústica musical. Lisboa : Fundação Calouste Gulbenkian, 2003. 1130 p.
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