Reforma Gregoriana / Ficha de citação 3 (CANDÉ, 2001)
A civilização em que haurimos nossa cultura identificou-se por tanto tempo com o cristianismo, de que permaneceu embebida, que foi chamada civilização cristã. O nascimento de Jesus assinala, para nosso calendário, o fim de uma era e o começo de outra, a nossa. Mas as civilizações não obedecem exatamente a nossos esquemas cronológicos. Se procurarmos representar o mundo moderno sucedendo ao antigo, só descobriríamos, de início, uma interminável fusão de imagens. Lendas pagãs e mitos cristãos escondem-nos os dilaceramentos, as crueldades, as angústias desses longos séculos indecisos de barbárie e de esperança. (p.184)

Tendo um canonista do século VI, Dionísio, o Pequeno, errado seus cálculos, Jesus tem quatro ou cinco anos no dia presumido de seu nascimento: a mesma idade de Sêneca, futuro preceptor de Nero. Naquele tempo, Ovídio, aos quarenta e quatro anos, termina sua Arte de amar Metamorfoses, Tito Lívio tem sessenta anos, Virgílio e Horácio acabam de falecer. Augusto vem de reinar sobre um império poderoso e próspero, que continuará a ampliar-se e manterá sua hegemonia por mais quatro séculos. (p.184)

Reforma Gregoriana

Desde os tempos heroicos de Ambrósio e Agostinho, uma floração de novos cantos enriquecera o repertório dos cristãos do Ocidente, apesar da barbárie ambiente: enquanto as outras artes estavam mergulhadas nas trevas, um novo classicismo musical se edificava anonimamente no seio das comunidades monacais. Não é possível que essas melodias dos séculos V e VI nos tenham sido transmitidas em sua forma original pelas notações que chegaram até nós (as mais antigas datam do século IX). Mas podemos imaginá-las, oferecendo uma grande diversidade de uma comunidade a outra e, sobretudo, de um centro religioso a outro, e revelando aqui e ali reminiscências pagãs ou influências estranhas à cultura latina. Já no século V, o papa São Leão tentara estabelecer o repertório; seus sucessores, Gelásio e Símaco, também contribuíram. Mas é principalmente à iniciativa de São Gregório Magno que a unidade da liturgia romana deve o fato de se ter realizado. (p.190)

A "reforma gregoriana" é, ao mesmo tempo, uma afirmação da especificidade do canto romano ante liturgias orientais e uma reação contra os particularismos, favorecidos pelo isolamento das diferentes comunidades durante as grandes comoções. (p.190)

Para evitar qualquer mal entendido, cumpre ter em mente que:

a) Gregório Magno é o promotor de uma reforma da liturgia baseada no canto romano, mas não compôs nenhuma das melodias que lhe foram frequentemente atribuídas desde a época carolíngia; (p.190)

b) Carlos Magno, dois séculos depois, acreditando "voltar às fontes de São Gregório", impõe a seus Estados um repertório que ele tem por canto "gregoriano" autêntico, sem referência precisa; na realidade, esse repertório constituiu-se nas igrejas francas tomando por modelo um canto romano que só é conhecido através de uma tradição oral irregular e incerta. As antigas notações alfabéticas tinham, então, caído em desuso havia tempo, e os primeiros neumas só aparecerão cinquenta anos depois da morte de Carlos Magno... Ora, foi desse repertório carolíngio que se originou nosso canto gregoriano. (p.190)

Inicialmente, a reforma é um compromisso entre uma teoria herdada da Antiguidade clássica e um conjunto de hábitos em perpétua contradição com a teoria. O papa Gregório é autoritário, mas prudente: seus missionários são incitados à tolerância para com os recém-convertidos e ate a certas concessões aos hábitos ancestrais, quando não se referem ao essencial. Não convinha comprometer uma ação cujo objetivo era considerável. A transferência a Constantinopla da capital do Império fazia, de fato, do papado a mais alta autoridade do Ocidente. Como os poderes políticos e religiosos tendiam a confundir-se numa Roma abandonada pela administração imperial, a unidade da liturgia em bases romanas torna-se um importante fator da autoridade pontifical. A música não é mais a alma da civilização, como na Antiguidade; deixou até de ser um entretenimento. Tornou-se monopólio de Roma e dos mosteiros, que possuem sozinhos sua ciência e que a conduzem a um novo classicismo. Ela pode tornar-se um meio de governo, donde a ambiciosa decisão de impor a toda a cristandade ocidental, sem o auxílio da notação, o canto que se pratica em Roma. (p.191)

A importância que Carlos Magno concedia à reforma gregoriana não era desinteressada. Sua obra de pacificação e de reunificação estava ligada ao poder da Igreja, que garantia a unidade da liturgia. Impor o canto romano era uma habilidade política, tanto mais que a influência de Roma superava agora a de Constantinopla... Assim, o estilo do cantochão e, por consequência, a orientação da música ocidental foram determinados originalmente por um cálculo político, de todo estranho aos critérios musicais. É o exemplo de um totalitarismo musical que implica a obrigação de fazer "boa" música. (p.192)

No entanto, os textos de Roma não traziam notação musical; logo, não se podia esperar que as melodias fossem transmitidas fielmente. Quando, na segunda metade do século IX, aplicou-se o sistema de neumas à notação do repertório, este já evoluíra de maneira bastante sensível em contato com o mundo carolíngio. A difusão dos manuscritos de neumas realizou, porém, a ambição de Gregório e Carlos Magno: recopiados (e enriquecidos) em toda a cristandade do Ocidente, inclusive Roma, formaram o repertório a que chamamos "gregoriano" ou "romano", embora seja "romano-galicano" e carolíngio. Temos o direito de supor que esse repertório foi fielmente conservado. A Paleografia musical de Solesmes (vol. II e III) publica o responsório-gradual justus ut palma, a partir de mais de duzentos manuscritos dos séculos IX a XVII, para estudar as diferentes notações: a identidade da melodia é notavelmente preservada. (p.192)

A grande beleza do canto de igreja que Carlos Magno nos impôs (acreditando impor outro) não nos impede de lamentar aquele de que fomos privados. Em sua defesa obstinada do canto "romano", o imperador ignorou as condições psicológicas e sociais da prática musical e manifestou um desprezo total do gênio específico dos diferentes povos que constituíam seu império. Na renascença cultural que ilustrou seu reinado, a música ficou prejudicada por sua função; fora da igreja, ela é reduzida, ao que parece, a alguns cantos de circunstância e a adaptações de Horácio ou de Virgílio, calcadas nos cantos litúrgicos. Recusando à inspiração seus direitos e fazendo da imitação dos modelos uma regra musical imprescritível, congelou-se em sua perfeição uma arte que tinha veleidades de se enriquecer e de se desenvolver. Duas alternativas não tardarão a oferecer à liberdade de criar: os "tropos" e a polifonia. (p.193)

REFERÊNCIA
CANDÉ, Roland de. História universal da música. Tradução: Eduardo Brandão. 2ª ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2001. Vol 1 - 640 p., Vol 2 - 512 p.
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