A Notação / Ficha de citação 6 (CANDÉ, 2001)
No tempo de Gregório Magno, era necessário empregar símbolos gráficos para conservar e transmitir as melodias litúrgicas. Não tendo sido atrofiada como a nossa pelo constante recurso à escrita, a memória era provavelmente vasta e fiel, facilitando o desenvolvimento de uma tradição oral. As novas melodias eram logo aprendidas e as antigas eram tão indissociáveis dos textos quanto as melodias das canções populares. O ensino autoritário de missionários litúrgicos permitia adequar as interpretações aos modelos romanos nas províncias mais excêntricas. Bem que se tentara, antes e depois de Boécio, representar os sons por letras, como os gregos haviam tentado. Esses sistemas facilitavam os desenvolvimentos teóricos, mas eram demasiado abstratos e demasiado complicados para engendrar uma escrita musical de uso corrente. (p.205)

No entanto, quando o uso dos tropos suscitou uma rica floração de novas melodias, no momento em que Carlos Magno fazia da unidade do culto uma preocupação particularmente imperiosa, resolveu-se ajudar a memória dos cantores, colocando acima das sílabas do texto signos que sugeriam o movimento da melodia, Serão chamados neumas. A etimologia dessa palavra é incerta. A que se elege com maior frequência se refere ao grego (neuma – sinal com a cabeça). Mas outra palavra grega (pneuma – sopro), designava, no século IX, os longos vocalizes sobre a vogal final de uma frase ou de certas palavras, como aleluia (também chamados de jubili). Certos eruditos pensam que a neuma latina derivava de uma assimilação dessas duas palavras gregas, confundidas numa só grafia. Mas poderíamos referir-se melhor ainda ao siríaco neimo (som, voz, canto), utilizado por Santo Efrém no século IV. A palavra nota (ou notula) só aparecerá no século XI como sinônimo de neuma. (p.205)

Nos manuscritos que chegaram até nós, os primeiros neumas identificáveis aparecem na segunda metade do século IX, mas eram provavelmente utilizados desde o fim do século VIII. Eram derivados dos sinais de acentuação da linguagem, cuja invenção é atribuída a Aristófanes de Bizâncio (falecido em cerca de 180 a.C.): acento agudo (elevação da voz), acento grave (abaixamento da voz), acento circunflexo e anticircunflexo (dupla inflexão). Os dois sinais fundamentais da notação neumática são a virga, indicando um som mais agudo do que o precedente, e o punctum, indicando um som mais grave. Agrupados por dois ou por três, esses sinais servem para formar todos os outros. (p.206)

Primitivamente, o sistema não é mais que um lembrete, que supõe o conhecimento prévio da melodia sugerida. Indecifráveis diretamente, os neumas alinhados hoje só podem ajudar-nos a cruzar hipóteses. Mas, no início do século X, em razão de um curioso sentimento de analogia entre sensações visuais e auditivas, imagina-se colocar os signos em alturas diferentes, conforme correspondam a sons mais ou menos agudos. Obtém-se, assim, uma guirlanda de neumas, cujo movimento geral pode evocar a "curva" da linha melódica. Ainda bastante imprecisa, essa notação, impropriamente qualificada de "diastemática" (de diastema: intervalo), é enriquecida um pouco mais tarde com duas espécies de indicações complementares: (p.206)

1) Acrescentam-se aos neumas letras significativas, que de início são igualmente imprecisas (a por altius, i por infeius, e por equaliter, t por tenere etc.), até que se tenha a ideia de utilizar as letras para designar certos sons, segundo o princípio herdado dos gregos e de Boécio, mas consideravelmente simplificado (tal como permaneceu em uso na Inglaterra e na Alemanha): (p.206)
A B C D E F G
Si Mi Sol

Segundo a escala adotada, duas espécies de B poderão ser utilizadas, correspondendo a nosso Si natural e a nosso Si bemol: o primeiro é representado por um B anguloso (quadratum, quadrado), o segundo por um B arredondado (rotondum, ou mole), que estão na origem do bequadro e do bemol. O emprego do H na Alemanha para o Si natural (o B se torna Si bemol) resulta de uma confusão entre o B quadrado e o H gótico. (p.208)

2) Um progresso decisivo é obtido pela distribuição dos sinais em torno de linhas de referência: uma só, primeira, colorida de vermelho, que situa a nota F (fá), depois uma segunda, colorida de amarelo e correspondente a nota C (dó). Traçam-se em seguida várias outras, sob o impulso de Guido d’Arezzo, de modo que cada linha e cada entrelinha correspondem a um só som, cuja entoação será, a partir de então, perfeitamente definida. A quinta linha generalizou-se a partir do século XIV, mas o sistema de quatro linhas permaneceu tradicional para a notação do cantochão. Uma só letra-chave basta para fixar a entoação correspondente a uma das linhas, deduzindo-se facilmente as outras de modo gradativo. Essas letras, postas no início de uma linha, deram origem, deformando-se, a nossas claves. (p.208)

Sistemas de neumas distintos se desenvolveram em várias regiões em diferentes épocas. Mas, a partir do fim do século XII, o emprego da pena de ganso de bico largo unificou o grafismo, simplificando-o e fazendo os neumas assumirem o aspecto característico da "notação quadrada": os pontos tornam-se quadrados ou losangos, as "ligaduras" (grupos de notas traçadas sem levantar a pena), grossos traços cheios. Esse grafismo será reencontrado na maioria dos manuscritos nos séculos XIII e XIV. Será conservado até os dias de hoje para a notação do cantochão. Não é um sistema distinto propriamente dito, mas uma escrita neumática com uma nova grafia. (p.208)

PRINCIPAIS NEUMAS


REFERÊNCIA
CANDÉ, Roland de. História universal da música. Tradução: Eduardo Brandão. 2ª ed. - São Paulo: Martins Fontes, 2001. Vol 1 - 640 p., Vol 2 - 512 p.
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